Há algum tempo escrevemos um artigo defendendo uma ideia simples, mas cada vez mais rara: a reputação de uma pessoa não pode ser sacrificada em nome de uma boa manchete.
Na época, muitos preferiram o julgamento imediato. Afinal, em tempos de redes sociais e da velocidade da informação, a acusação costuma render mais audiência do que a absolvição. O problema é que o Direito não funciona pela lógica da torcida, mas pela lógica da prova.
O caso envolvendo o desembargador Alexandre Bastos parece caminhar exatamente nessa direção.
O voto do relator no Conselho Nacional de Justiça não absolve definitivamente o magistrado. Isso precisa ficar claro. O Processo Administrativo Disciplinar continua em andamento. Entretanto, o próprio relator reconhece que não existem, neste momento, elementos concretos que justifiquem a manutenção do afastamento cautelar, destacando que as principais diligências já foram realizadas, que não há demonstração atual de risco às investigações e que medidas cautelares não podem se transformar em punições antecipadas.
Mais do que isso, o voto registra que não foram encontrados procedimentos fiscais contra o magistrado, que parte importante das suspeitas iniciais perdeu força ao longo da instrução e que diversos elementos permanecem no campo das hipóteses, exigindo produção de provas antes de qualquer conclusão definitiva.
É justamente aqui que nasce uma reflexão necessária.
Quando uma investigação começa, manchetes estampam palavras como “esquema”, “desvios”, “operação”, “suspeitas”, “escândalo”. O nome da pessoa passa a ser associado diariamente à culpa, ainda que juridicamente ela continue sendo apenas investigada.
Mas quando a própria investigação evolui, quando as provas não confirmam as suspeitas iniciais ou quando os órgãos responsáveis passam a reconhecer que determinados fundamentos perderam consistência, o espaço dado à notícia costuma ser infinitamente menor.
A acusação ocupa a capa.
A cautela, quando chega, muitas vezes fica escondida em poucas linhas.
Não se trata de defender autoridades. Muito menos de afirmar que alguém está inocentado antes do julgamento final. Trata-se de defender um princípio que vale para qualquer cidadão: ninguém deveria ser condenado pela opinião pública antes de ser julgado pelas instituições competentes.
A imprensa exerce papel indispensável à democracia. Fiscaliza, denuncia e informa. Mas exatamente por exercer essa missão, carrega também uma enorme responsabilidade.
Entre informar e condenar existe uma diferença gigantesca.
Entre noticiar fatos e construir narrativas também.
O próprio voto do CNJ faz questão de lembrar que medidas cautelares devem ser constantemente reavaliadas e não podem subsistir apenas pela gravidade abstrata das acusações ou pela simples repercussão dos fatos. O Direito exige contemporaneidade, proporcionalidade e prova concreta.
Talvez esse seja um ensinamento que também devesse inspirar parte do jornalismo.
Porque manchetes têm memória.
O Google tem memória.
As redes sociais têm memória.
A opinião pública também.
Quando alguém é acusado, seu nome percorre o país em poucas horas. Mas, se amanhã a investigação demonstrar que os fatos eram diferentes do que se imaginava, dificilmente a reparação alcançará a mesma velocidade da acusação.
E então permanece uma pergunta que raramente encontra resposta:
Quem devolve a reputação de alguém que foi publicamente condenado antes do julgamento?
Não é uma pergunta dirigida a um veículo específico.
É uma reflexão para todos nós que vivemos do jornalismo.
A boa imprensa não tem compromisso com a condenação nem com a absolvição.
Seu compromisso deve ser, sempre, com a verdade — inclusive quando ela muda o rumo da história.
Por Joel Silva – Jornalista, pós-graduado em Marketing Político





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