Opinião – A velha farsa da terra e do sangue indígena no Brasil

por | ago 28, 2025 | informes, NOTÍCIAS, OPINIÃO/ARTIGO

O Congresso ampliou em mais cinco anos o prazo para a ratificação de terras. Na propaganda, soa como medida justa, mas basta olhar de perto para perceber: é mais uma vitória dos grandes latifundiários, enquanto pequenos e microprodutores quase nada têm a ver com isso. Quem tem menos de 15 módulos fiscais já estava dispensado desde o começo. O presente foi mesmo para os donos de imensas áreas, que seguem ganhando tempo e folga para se ajustar.

E aqui está a ferida que Mato Grosso do Sul insiste em fingir que não vê. Em Aquidauana, a história é marcada por massacres e brutalidade contra indígenas. Os documentos não mentem: degolas, mulheres grávidas com os ventres abertos, aldeias devastadas, índios vendidos como mercadoria. O nome do Coronel José Alves Ribeiro aparece nas páginas que denunciam essa barbárie.

Pois bem, o fio da história não se rompeu. Os descendentes desse coronel hoje circulam pelos corredores da política regional, já foram prefeitos, ensaiam mandatos e agora se preparam para disputar cadeiras em cargos públicos. E ironia das ironias: buscam justamente o voto indígena — aqueles que seguem largados, sem assistência adequada, sobrevivendo entre a miséria e a promessa vazia.

Ao longo do tempo, esses votos foram sistematicamente trocados por cestas básicas, favores e promessas vazias. A falta de assistência à saúde e às necessidades mais elementares continua sendo uma mazela permanente. Não há melhorias consistentes, apenas o ciclo viciado da troca do voto pelo sacolão, que mantém comunidades inteiras na dependência e no abandono.

É o ciclo da terra e do sangue travestido em democracia. Ontem, o poder se mantinha à base do facão, da espoliação e da escravização. Hoje, ele se mantém no palanque, com sorrisos e apertos de mão, mas com o mesmo desprezo estrutural. No fundo, só mudou o cenário: saíram as degolas, entraram as urnas.

Enquanto isso, o pequeno produtor, que planta em menos de 15 módulos fiscais, nunca teve a mesma moleza. Para esse, a lei é dura, a burocracia é implacável, o crédito é escasso. Já o grande segue protegido, blindado pelo Estado, pelo Congresso e pela herança do sangue derramado.

Joel Silva – Radialista e jornalista de formação especializado em Mkt político

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