Há uma velha máxima da política: quando um líder troca de partido, não leva consigo, automaticamente, o eleitorado da nova legenda. Às vezes, acontece justamente o contrário. É o político que acaba sendo engolido pela identidade do partido que escolheu.
É exatamente essa dúvida que começa a rondar a candidatura de Reinaldo Azambuja ao Senado.
Durante décadas, Reinaldo construiu sua trajetória no PSDB. Era um político identificado com a moderação, com a articulação institucional e com um perfil distante da guerra ideológica que passou a dominar o país após 2018.
Então veio a migração para o PL.
Natural? Talvez. Conveniente? Sem dúvida. Inteligente? Eis a pergunta que começa a ganhar força.
O problema é que o eleitor bolsonarista costuma ser um eleitor de identidade. Não basta vestir a camisa; é preciso ter ajudado a costurá-la.
Nesse campo, Capitão Contar larga muitos metros à frente.
Contar não virou bolsonarista. Sempre foi. Fez campanha ao lado desse eleitorado, perdeu uma eleição para o governo do Estado defendendo essa bandeira e permanece sendo identificado como representante da direita mais fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em outras palavras: quem procura o “bolsonarismo raiz” dificilmente troca o original pela versão recém-chegada.
Enquanto isso, quem era o eleitor tradicional de Reinaldo — mais pragmático, mais centrista e menos ideológico — pode ter ficado órfão.
É justamente nesse espaço que Nelsinho Trad parece encontrar oxigênio.
As pesquisas mais recentes realizadas em Campo Grande colocam o senador na liderança das intenções de voto para o Senado, com Capitão Contar em segundo e Reinaldo aparecendo em terceiro no primeiro voto.
É verdade que levantamentos estaduais ainda mostram um cenário muito mais equilibrado, em alguns casos até com Reinaldo liderando ou tecnicamente empatado na dianteira.
Mas política também é tendência.
E tendência merece atenção.
A estratégia de ocupar o mesmo espaço eleitoral de Capitão Contar cria uma disputa interna dentro do próprio campo conservador. Em vez de ampliar mercado, passa a disputar clientes na mesma prateleira.
Não parece a decisão mais confortável.
Reinaldo sempre venceu eleições apresentando-se como gestor, não como guerreiro cultural. Seu discurso era de eficiência administrativa, equilíbrio fiscal e capacidade de articulação. Ao migrar para um partido cuja principal marca é a identidade ideológica, passou a disputar uma narrativa que nunca foi a sua.
E narrativas não mudam apenas com uma nova filiação partidária.
O eleitor percebe.
No fim das contas, a eleição para o Senado em Mato Grosso do Sul caminha para uma disputa em que cada candidato parece representar um nicho distinto: Nelsinho tenta consolidar o eleitor moderado e de centro; Capitão Contar busca manter a preferência do bolsonarismo mais fiel; e Reinaldo ainda trabalha para convencer o eleitor de que sua mudança de endereço político representa mais do que uma troca de sigla.
Se conseguirá fazer essa travessia, só as urnas responderão.
Mas a dúvida já está posta.
E, em política, quando uma estratégia passa a precisar de muitas explicações, normalmente é porque ela deixou de ser uma escolha óbvia.







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