A tragédia de Itumbiara não pode ser tratada como mais um caso policial apenas. Ela é um espelho brutal de uma falência emocional que precisa ser discutida com seriedade. Um pai, ao descobrir a traição da esposa, matou os próprios filhos.
E antes de qualquer análise, é preciso dizer o óbvio, mas que precisa ser repetido. Traição não é sentença de morte. Frustração não autoriza violência.
Dor não justifica destruição. Nada, absolutamente nada, coloca a morte de crianças dentro de qualquer campo aceitável de compreensão moral.
O que assusta, além do crime em si, é observar parte da opinião pública tentando deslocar responsabilidade, tentando explicar demais, tentando relativizar.
Não. Relacionamentos acabam, casamentos fracassam, traição dói, humilhação dói, abandono dói. Mas, transformar dor em violência extrema não é uma escolha que se possa fazer. Há, sim, aspectos psicológicos que precisam ser analisados.
Baixa tolerância, frustração, rigidez emocional, necessidade de controle, ego ferido, narrativas de honra, sentimento de humilhação, tudo pode explicar comportamento, mas explicação não é justificativa. Biologia não elimina responsabilidade neuroquímica, não absorve caráter.
Quando alguém transforma os próprios filhos em instrumento de punição conjugal, não estamos falando apenas de descontrole, estamos falando de posse, de incapacidade de elaborar a dor sem destruir.
Crianças não são, não podem ser extensão do ego dos pais. Filhos não são ferramentas de vingança. E há algo ainda mais perigoso, romantizar a intensidade emocional, confundir controle com amor, confundir ciúme com cuidado.
Confundir honra a ferida com dignidade. Precisamos parar de aceitar discursos que colocam a culpa na vítima indireta. Nenhuma escolha conjugal autoriza violência contra filhos e nem contra o conge.
Essa tragédia precisa servir para algo maior, para discutir saúde mental com seriedade, para falar sobre relação e regulação emocional, para quebrar a cultura de posse nas relações, para ensinar que maturidade é atravessar a dor sem destruir vidas. Dor não tratada pode e vira violência, mas violência continua sendo escolha.
E isso precisa ser dito com todas as letras. É claro que a gente se solidariza com a família das vítimas e reforça. Responsabilidade é individual. A vida de uma criança jamais poderia ser instrumento de vingança. Não dá para dizer bom dia
por: Joel Silva – Radialista e jornalista de formação especializado em mkt político







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