Na política das insinuações, Soraya incomoda — mas sua atuação por Mato Grosso do Sul é inquestionável
Um vídeo de menos de dois minutos foi suficiente para desencadear uma enxurrada de julgamentos apressados nas redes sociais e em parte da imprensa contra a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS). As imagens, gravadas de forma casual e disseminadas rapidamente, mostram a parlamentar ao lado do empresário Silvio Assis em uma loja de grife em Orlando, nos Estados Unidos, durante um período de férias em dezembro de 2025 — quando ambos estavam acompanhados de suas respectivas famílias.
A reação foi imediata e rasa. Sem investigação, sem apuração consistente e sem qualquer comprovação de irregularidade, surgiram acusações sustentadas apenas por insinuações. A narrativa se construiu em torno da tentativa de associar a senadora a supostos escândalos — supostos porque, até o momento, não há qualquer condenação ou prova contra Soraya Thronicke, tampouco contra Silvio Assis.
O episódio escancara um velho problema da política brasileira: a facilidade com que a vida privada de mulheres públicas se transforma em alvo de ataques morais, enquanto trajetórias, resultados e entregas concretas são convenientemente empurrados para segundo plano.
O julgamento que raramente recai sobre homens
Questionar o direito de uma senadora da República — advogada, profissional bem-sucedida, com patrimônio declarado — de frequentar estabelecimentos de alto padrão ou viajar ao exterior diz mais sobre quem julga do que sobre quem é julgada. A pergunta é inevitável: se fosse um homem, o tratamento seria o mesmo?
Na política brasileira, parlamentares homens são vistos com frequência em restaurantes caros, viagens internacionais ou em convivência com figuras investigadas, sem que isso gere a mesma comoção. Para eles, o luxo é naturalizado. Para mulheres, vira “desvio de conduta”.
Parte das críticas se concentrou na presença de Silvio Assis. Jornalista e profissional da área de Relações Governamentais (RelGov), ele atua de forma institucionalizada, com CNPJ, atividade lícita e trânsito público. Em democracias maduras, como os Estados Unidos, o lobby é regulamentado e reconhecido como instrumento legítimo de diálogo entre sociedade civil, setor produtivo e Estado.
Amizade não é crime. Estar sob investigação não é condenação. O Estado Democrático de Direito se sustenta sobre a presunção de inocência — princípio que costuma ser ignorado quando o sensacionalismo se impõe à informação.
O trabalho que não viraliza
Enquanto o vídeo circula, seis anos de mandato praticamente desaparecem do debate público. Apenas em 2025, Soraya Thronicke destinou mais de R$ 150 milhões em emendas parlamentares aos 79 municípios de Mato Grosso do Sul.
Os recursos atenderam áreas essenciais como saúde, educação, pavimentação, infraestrutura, agricultura familiar e cultura. A causa animal, historicamente negligenciada, avançou de forma inédita com a Caravana da Castração, que recebeu R$ 5 milhões e realizou mais de 16.500 atendimentos em cerca de seis meses, com impacto direto na saúde pública.
Projetos culturais, festas tradicionais e ações estruturantes nos municípios contam com apoio do mandato. O Prospera MS consolidou-se como referência no fortalecimento da produção familiar e no desenvolvimento regional.
Nada disso viraliza. Nada disso cabe em vídeos curtos. Mas é isso que muda a vida das pessoas.
Mulher na política é resistência diária
Em um estado que segue entre os que mais registram casos de feminicídio no país, Soraya mantém a pauta das mulheres como eixo central do mandato. Entre as iniciativas estão projetos que ampliam a proteção, endurecem punições contra agressores e reconhecem a misoginia como crime de ódio.
Ainda assim, a crítica dirigida a ela é mais dura, mais pessoal e mais agressiva — reflexo de um machismo estrutural que insiste em sobreviver, inclusive no discurso midiático.
Política madura exige mais que insinuação
Como toda trajetória política real, o caminho envolve escolhas, rompimentos e reposicionamentos. Soraya rompeu alianças quando identificou extremismos e interesses pessoais acima do interesse público. Decisões legítimas, que também geram ressentimentos e ataques.
Douradense, advogada, mãe, esposa, filha e, antes de tudo, humana. Está senadora, sem apego ao cargo, mas com dedicação ao trabalho e foco em resultados concretos para Mato Grosso do Sul.
O episódio de Orlando revela pouco sobre Soraya Thronicke e muito sobre o nível do debate público, sobre o machismo ainda presente na política e sobre uma parte da mídia que abdica da apuração em favor da insinuação.
A mentira corre rápido. O trabalho consistente, silencioso e efetivo deixa marcas muito mais duradouras.







0 comentários