Donald Trump, diante de Zelensky na Casa Branca, resolveu ironizar: “em guerra, não tem eleições”. Riram. Ele também. Mas o riso não deve enganar ninguém. É assim que os ditadores escrevem sua história: testando limites em público, normalizando o absurdo até que ele vire regra. O que começa como piada vira doutrina de poder.
Não é novidade. A cartilha é antiga: primeiro, o discurso jocoso; depois, a ameaça aberta; por fim, a execução sem constrangimento. Quem conhece a trajetória de tiranos ao longo do tempo — de Mussolini a Chávez, de Putin a Erdoğan — sabe que a escada do autoritarismo tem sempre os mesmos degraus: desprezo pela democracia, apego doentio ao poder, hostilidade contra quem ousa discordar.
E Trump já não joga só no campo das palavras. Enquanto ensaia falas que relativizam eleições, movimenta navios militares próximo à Venezuela, num claro sinal de intimidação regional. Ao mesmo tempo, dispara contra o Brasil com tarifações e ameaças, mirando setores estratégicos e deixando claro que, se depender dele, a submissão não será apenas simbólica, mas econômica e militar.
O recado é direto: para manter sua narrativa e saciar sua obsessão por poder, Trump está disposto a criar tensões internacionais, usar a economia como arma e, se preciso, flertar com a guerra. Isso não é estratégia de estadista — é a fórmula clássica de ditadores.
O Brasil precisa abrir os olhos. Historicamente, importamos vícios e modismos dos Estados Unidos com atraso, mas sempre importamos. Se a democracia americana pode ser relativizada em nome de um líder, que mensagem isso envia para os nossos próprios aventureiros políticos?
Não nos enganemos: o riso de Trump é o mesmo sorriso cínico de todo líder que acredita que o poder lhe pertence por direito divino. O resto — eleições, instituições, o povo — é detalhe descartável.
Joel Silva – Radialista e jornalista de formação especialista em Mkt político.









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