Orelha não era apenas um cachorro.
Orelha era presença. Era rotina. Era afeto andando pelas ruas da Praia Brava, no Norte de Florianópolis.
Com cerca de 10 anos de idade, já idoso, Orelha era um cão comunitário, dócil, brincalhão e extremamente carinhoso. Um daqueles animais que se tornam parte da paisagem humana: reconhecido pelos moradores, querido pelas crianças, respeitado por quem passava e até conhecido pelos turistas que visitavam a Praia Brava.
Ele era um dos mascotes do bairro. Vivia livre, mas nunca abandonado. Tinha casinha, tinha comida, tinha cuidados veterinários, vacinas, vermífugos e, principalmente, tinha amor. Não havia um único dono, porque Orelha era de todos. E isso diz muito sobre a beleza dessa relação construída espontaneamente pela comunidade.
Segundo quem convivia com ele diariamente, bastava alguém falar em tom mais carinhoso que Orelha abaixava as orelhas, abanava o rabo e se deitava, esperando um afago na barriga. Um gesto simples, quase infantil. Um gesto de confiança. Um gesto que jamais deveria terminar em violência.
No dia 15 de janeiro, Orelha foi encontrado agonizando por moradores. Ainda houve tentativa de salvá-lo, mas a gravidade das agressões fez com que ele precisasse ser submetido à eutanásia. Uma decisão dura, tomada para interromper o sofrimento que jamais deveria ter existido.
A Polícia Civil identificou pelo menos quatro adolescentes suspeitos de envolvimento nas agressões. E é aqui que a dor se transforma em indignação. Porque, enquanto a comunidade chora a perda de um ser indefeso, o sentimento que se espalha é o de impunidade. A sensação de que a crueldade, mais uma vez, tenta se esconder atrás do silêncio, do privilégio e da falta de responsabilização.
E então a pergunta retorna, mais forte do que nunca: quem são os irracionais?
Os cães, que amam sem julgar?
Que convivem sem ódio?
Que reconhecem carinho e devolvem lealdade?
Ou os seres humanos capazes de ferir um animal idoso, dócil, conhecido por todos, apenas porque podem?
Mas se essa história nos revolta, ela também revela algo poderoso. A morte de Orelha gerou comoção nacional. Mobilizou moradores, protetores, organizações, autoridades e até celebridades. Pessoas foram às ruas. Caminharam com seus próprios cães. Vestiram camisetas, levantaram cartazes, fizeram orações. As redes sociais se encheram da hashtag #JustiçaPorOrelha.
Isso importa.
Isso mostra que a crueldade não nos representa.
A maioria de nós ensina respeito. A maioria sente empatia. A maioria entende que a forma como tratamos os animais diz muito sobre quem somos como sociedade.
Orelha se tornou símbolo. Um símbolo simples, mas profundamente verdadeiro. Da convivência, do cuidado coletivo e, agora, da necessidade urgente de reflexão.
Que a memória de Orelha não seja apenas luto.
Que seja cobrança.
Que seja mudança.
Porque os cães já sabem amar.
Quem ainda precisa aprender… somos nós.







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