Campo Grande enfrenta mais uma grave crise no transporte coletivo urbano, com a greve dos motoristas confirmada e previsão de início a partir de segunda-feira (15). O impasse envolve atraso no pagamento de salários, dificuldades financeiras do Consórcio Guaicurus, divergências com a Prefeitura de Campo Grande sobre repasses e subsídios, além de reflexos diretos para milhares de usuários que dependem diariamente do serviço.
A paralisação foi aprovada em assembleia pelos trabalhadores após o não pagamento integral dos salários referentes ao mês de novembro, que deveriam ter sido quitados até o quinto dia útil. A categoria também demonstrou preocupação com o pagamento do adiantamento salarial (vale) e da primeira parcela do 13º salário, itens considerados essenciais para suspender o movimento grevista.
Mesmo após o Consórcio efetuar pagamento parcial dos salários, os motoristas decidiram manter a paralisação, alegando que o compromisso assumido não foi cumprido integralmente. A categoria afirma que só reconsidera a greve com a quitação total dos valores pendentes.
Dívida milionária e crise financeira
O Consórcio Guaicurus reconhece atravessar uma crise financeira e afirma acumular dívidas superiores a R$ 15 milhões, incluindo folha salarial, encargos trabalhistas, tributos e débitos com fornecedores. Segundo a concessionária, o desequilíbrio ocorre principalmente pela diferença entre a tarifa paga pelo usuário e a tarifa técnica, que refletiria o custo real da operação do sistema.
Atualmente, o valor pago pelos passageiros não cobre integralmente os custos do serviço, e o Consórcio defende a necessidade de revisão do subsídio pago pelo poder público para garantir a sustentabilidade do sistema e a manutenção dos compromissos trabalhistas.
Troca de acusações entre Consórcio e Prefeitura
A crise gerou uma nova rodada de troca de responsabilidades entre a concessionária e a Prefeitura de Campo Grande. O Consórcio afirma que enfrenta dificuldades de caixa em razão de atrasos ou insuficiência nos repasses, o que comprometeria o pagamento dos funcionários.
Por outro lado, a Prefeitura nega inadimplência e sustenta que os repasses previstos em contrato estão sendo realizados. A Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos (Agereg) também declarou que acompanha o caso e avalia medidas administrativas, inclusive a possibilidade de sanções contratuais, caso a greve ocorra fora dos parâmetros legais.
Reação do empresariado e da sociedade
A possibilidade de paralisação total do transporte coletivo gerou forte reação do setor produtivo. Representantes do comércio alertam para impacto direto nas vendas, especialmente neste período de fim de ano, quando o fluxo de consumidores é fundamental para o faturamento das empresas.
Além do empresariado, usuários demonstram preocupação com a interrupção do serviço. Muitos dependem exclusivamente do transporte coletivo para trabalhar, estudar e acessar serviços básicos. A situação se agrava diante de críticas recorrentes sobre ônibus lotados, atrasos frequentes e frota envelhecida, problemas que já vinham sendo enfrentados antes mesmo da ameaça de greve.
Pressão política e questionamentos na Câmara
O tema também ganhou repercussão política. Vereadores cobraram explicações da Prefeitura e do Consórcio, apontando falhas na gestão do sistema e defendendo medidas mais rígidas para garantir a continuidade do serviço. Parlamentares alertam que uma greve deixaria a cidade praticamente paralisada, penalizando principalmente a população de menor renda.
Há ainda questionamentos sobre o modelo de concessão, a transparência dos números apresentados pela empresa e a efetividade da fiscalização exercida pelo município.
Histórico de conflitos no transporte coletivo
Esta não é a primeira vez que o transporte coletivo de Campo Grande enfrenta paralisações ou ameaças de greve em razão de atrasos salariais. Ao longo do ano, ocorreram episódios pontuais de suspensão do serviço, além de investigações envolvendo o Ministério Público do Trabalho, que analisou denúncias relacionadas a paralisações anteriores.
Especialistas apontam que o problema é estrutural e envolve financiamento do sistema, gestão do contrato, modelo tarifário e qualidade do serviço prestado à população.
Impasse segue sem solução definitiva
Até o momento, não há anúncio oficial de acordo que garanta o pagamento integral das pendências e evite a greve. Prefeitura, Consórcio e trabalhadores seguem em negociações, enquanto a população aguarda uma solução que assegure a continuidade do transporte coletivo.
Caso a paralisação seja mantida, a expectativa é de impacto significativo na rotina da Capital, com reflexos econômicos, sociais e administrativos, reforçando a necessidade de uma solução estrutural e definitiva para o sistema de transporte urbano de Campo Grande.









0 comentários