O Brasil no meio do fogo cruzado: oportunidade ou ilusão?

por | set 13, 2025 | Destaques, informes, NOTÍCIAS, OPINIÃO/ARTIGO

Ricardo Amorim diz que o Brasil não precisa escolher entre Estados Unidos e China. Será mesmo tão simples assim?

O economista Ricardo Amorim aponta o óbvio ululante: o Brasil não deveria escolher entre Washington ou Pequim, mas negociar com os dois. Parece sensato, mas ignora que, no jogo bruto da geopolítica, cedo ou tarde alguém cobra a fatura. Os EUA querem alinhamento automático. A China quer acesso irrestrito. E o Brasil acha que pode dançar esse tango sem pisar no pé de ninguém. Ingenuidade ou otimismo exagerado?

O tal “tarifaço” de Trump virou o grande fantasma. Amorim diz que o impacto no PIB será de míseros 0,25% em 2025, um sopro quase irrelevante. Mas o mercado, sempre bipolar, já elegeu o Brasil como refúgio temporário: o real foi a moeda que mais se valorizou no mundo após o anúncio. Entrada de capital especulativo não é desenvolvimento, é anestesia. Funciona por uns meses, depois a dor volta, geralmente maior.

Outro ponto: o Brasil seria o único emergente com risco geopolítico perto de zero. Verdade ou autoengano? Risco não é só guerra. É também instabilidade política, insegurança jurídica, troca de regras no meio do jogo e um Estado que vive de improviso. Quem investe no Brasil sabe que não é só a geopolítica que pesa. É a velha política interna, com sua vocação para sabotagem.

Amorim sugere que o Brasil faça o oposto de Trump: mais acordos comerciais com todo mundo. Faz sentido. Mas quem acredita que Brasília tem visão estratégica de longo prazo? A cada quatro anos, mudam os discursos, as prioridades e as alianças. Enquanto isso, a Rota Bioceânica avança, mas no ritmo de burocracia e falta de ousadia.

Em resumo: o Brasil tem, sim, a chance de lucrar no meio do caos global. Mas achar que basta “negociar com todos” é simplificar demais. No tabuleiro das potências, quem tenta agradar a todos costuma acabar usado por ambos. O Brasil precisa decidir se vai ser protagonista ou figurante nesse teatro.

Joel Silva – Radialista e jornalista de formação especializado em mkt político.

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