Opinião de Joel Silva: Fux abre brecha: a democracia relativizada no voto conveniente

por | set 10, 2025 | NOTÍCIAS

Entre a “arraia miúda” condenada ontem e os poderosos poupados hoje, o Supremo assiste a mais uma contradição estratégica.

O voto do ministro Luiz Fux no julgamento dos réus do 8 de janeiro é uma obra-prima da incoerência. Antes, defendeu punição exemplar para a base — a “arraia miúda”. Agora, quando o jogo envolve os articuladores centrais do caos, adota um tom de brandura, quase condescendente. É o velho enredo: ferro nos fracos, benevolência nos fortes.

Mais grave: ao relativizar a gravidade da tentativa golpista, Fux também relativiza a própria democracia. E aqui não há espaço para meias-palavras: quando um ministro do Supremo começa a diminuir o ataque ao coração do regime democrático, abre-se um precedente perigoso. A leniência vira jurisprudência de conveniência.

Esse voto não é só uma divergência técnica — é um gesto político. Um aceno para o bolsonarismo que, amanhã, pode brandir as palavras de Fux como munição jurídica para contestar condenações. É como se estivesse deixando uma janela aberta para quem quiser revisitar o golpe com verniz legal.

O Supremo, no entanto, não deve se perder nessa curva. Bolsonaro será condenado. Fux pode até suavizar as bordas, mas não tem força para mudar o desfecho. O que pode — e deve — acontecer é o fortalecimento da narrativa bolsonarista, agora com um voto de ministro como álibi de luxo.

Restará a Cármen Lúcia e a Cristiano Zanin a tarefa de responder às teses vazias apresentadas por Fux. Não apenas para condenar, mas para reafirmar que democracia não se negocia e não se relativiza.

No fim das contas, a divergência de Fux não salva réu algum. Mas salva o discurso bolsonarista de morrer no plenário. E, ironicamente, dá a esse mesmo discurso ares de legitimidade. Eis o legado de sua “coerência seletiva”.

Joel Silva – Radialista e jornalista de formação especializado em mkt político.

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