EDITORIAL | Quando a culpa é sempre dos outros

por | dez 2, 2025 | Destaques, informes, NOTÍCIAS, OPINIÃO/ARTIGO | 0 Comentários

Em Campo Grande, virou rotina: cada vez que a prefeita Adriane abre o microfone, sobra acusação para todos — menos para ela mesma. Em vez de responder pelos problemas que se acumulam na cidade, a prefeita prefere mirar nos adversários políticos, levantar suspeitas sem prova e transformar qualquer questionamento legítimo numa teoria conspiratória.

Desta vez, em um programa de rádio, Adriane disparou contra Rose Modesto, adversária nas eleições passadas, e contra o ex-prefeito Marquinhos Trad. E aqui entra um detalhe incômodo, que ela convenientemente esquece de mencionar: Adriane foi vice de Marquinhos por dois mandatos seguidos. O passado, nesse caso, só existe quando convém.

Enquanto isso, a Campo Grande real — aquela que não está no script da entrevista — continua atolada em problemas muito concretos:

  • A saúde vive um colapso, com filas intermináveis nos postos.
  • A cidade ostenta crateras que não são buracos: são armadilhas que já vitimaram motoristas.
  • O escândalo da folha secreta segue sem explicação convincente.
  • A popularidade da prefeita despenca como um diagnóstico coletivo de cansaço e indignação.

Mas, em vez de respostas, Adriane entrega espetáculo.

O inimigo imaginário

Na entrevista, a prefeita afirmou ter sido vítima de um “ataque coordenado”, organizado — segundo ela — por Rose e Marquinhos, que teriam contratado manifestantes para tumultuar um evento natalino. Entre as acusações, soltou que um professor teria “orquestrado bandidos armados”. O mesmo professor que foi agredido em frente às câmeras pela Guarda Municipal, subordinada à própria prefeita.

A narrativa não fecha. O discurso não se sustenta. E o inimigo, mais uma vez, é invisível — mas sempre útil.

Vale reforçar: não foram todos os guardas. Há profissionais sérios e preparados na corporação. Mas tentar justificar a agressão cometida por alguns como se fosse um ato heroico de proteção às famílias é, no mínimo, desonesto.

A arte de não falar do essencial

Curioso é o que Adriane insiste em não dizer.
Não fala dos supersalários que irritam o funcionalismo.
Não fala das ruas em estado de calamidade.
Não fala dos trabalhadores que madrugam nos postos de saúde atrás de atendimento básico.

E, sobretudo, não fala da própria incapacidade de governar uma cidade que exige gestão — não justificativas.

O velho truque do desvio de foco

Atacar Rose Modesto, chamar adversária de “desocupada”, insinuar armações e colocar a culpa em todos os outros é um truque político antigo. Funciona quando a população está distraída.
Mas a Campo Grande de hoje não está.

A população vê.
Sente na pele.
Pisa nos buracos.
Espera horas na fila.
Acompanha escândalos.
E percebe claramente quando o governante troca trabalho por discurso.

O que falta à prefeita não é microfone — é gestão

Adriane diz que está defendendo sua honra. Mas uma gestão se defende com resultados, não com ataques.
Uma cidade se conduz com soluções, não com teorias conspiratórias.
E autoridade se demonstra com equilíbrio, não com rompantes.

Enquanto a prefeita tenta convencer Campo Grande de que o problema é sempre o outro, o caos continua exatamente onde está: na porta da prefeitura.

0 comentários

Enviar um comentário