Em conversa com Joel Silva, o médico deixou claro que as medicações à base de análogos de GLP-1 e outras moléculas revolucionaram o tratamento da obesidade, mas viraram um problema sério quando usadas sem acompanhamento.
Segundo ele, o uso indiscriminado, muitas vezes com produtos comprados em países vizinhos e até falsificados, tem provocado aumento de internações por desidratação, desnutrição e efeitos colaterais graves.
“É medicação, não é suplemento. Se usar da forma errada, o que sobra não são os benefícios, são os efeitos colaterais”, alertou.
Ele explicou que muitas pessoas estão chegando aos hospitais com quadros de vômitos e diarreia intensos, incapazes até de ingerir água, precisando de hidratação na veia e suporte médico.
Ponto central: a medicação foi criada para tratar obesidade e diabetes como doenças crônicas, com uso contínuo e monitorado. Não é “injeção mágica” para caber na roupa da festa.
Energético não emagrece – e pode virar vício
Provocado por Joel sobre o consumo de energéticos, Dr. Jean foi direto: tomar energético não ajuda em nada na perda de gordura.
Ele explicou que o abuso dessas bebidas aumenta o risco de vício em cafeína e outros efeitos colaterais, mas não acelera o metabolismo de forma relevante para emagrecer.
“O energético pode deixar a gente mais alerta, mas não traz benefício para perda de gordura. Muita gente toma achando que está acelerando o metabolismo – isso cai por terra.”
O uso esporádico, segundo o médico, não é problema. O perigo é transformar o energético em hábito diário e em grandes quantidades.
Proteína, massa magra e o risco de “emagrecer ficando fraco”
Um dos alertas mais fortes do programa foi sobre a perda de massa muscular em pacientes que usam as canetas emagrecedoras sem orientação nutricional.
Como essas medicações reduzem o apetite, muita gente simplesmente “come menos de tudo” – e, junto com calorias, reduz também a ingestão de proteína, que é essencial para preservação da massa magra.
Dr. Jean explicou que:
O brasileiro já consome pouca proteína em geral;
Com o apetite reduzido, come ainda menos carne, frango, peixe, ovo e leguminosas;
O resultado é catabolismo muscular intenso, perda de força e risco de sarcopenia (perda de músculo e de funcionalidade).
“A pessoa acha que está afinando, mas na verdade está perdendo músculo. Depois é muito difícil reconquistar essa massa e a funcionalidade”, resumiu.
Ele lembrou que isso é ainda mais grave em quem é sedentário, não faz atividade física e usa o remédio como único recurso.
Caneta na barriga, pastel e fast-food no prato: a conta não fecha
Joel relatou casos de pessoas que usam as medicações e continuam com uma dieta baseada em pastel, fast-food e sanduíches gordurosos, como se o remédio compensasse a má alimentação.
Dr. Jean reforçou que não existe milagre: se a base alimentar é pobre em proteína e rica em gordura e ultraprocessados, o paciente até pode ver o peso cair no começo, mas:
Perde músculo;
Fica mais fraco e menos funcional;
Tem mais chance de recuperar o peso depois, muitas vezes em forma de gordura.
Ele listou proteínas importantes para preservar a massa magra:
Carnes, frango, peixe;
Ovos;
Proteínas vegetais como ervilha, lentilha, grão-de-bico e até brócolis.
Paraguai, falsificação e a conta que chega no SUS
Outro ponto sensível foi o “turismo farmacêutico” nos países vizinhos. Dr. Jean explicou que:
Cada país tem sua agência reguladora, e buscar tratamento lá, com médico de lá, é uma coisa;
Outra bem diferente é comprar por conta própria, sem receita, sem acompanhamento, apenas porque “é mais barato e não pedem receita”.
Com o aumento da demanda, cresceram também os casos de medicações falsificadas, especialmente em países onde o controle é mais frouxo. O resultado, segundo ele, foi uma enxurrada de pacientes passando mal no Brasil, ocupando leitos e pressionando o sistema de saúde.
Esse cenário, pontuou o médico, ajudou a levar o CFM e as autoridades a restringirem ainda mais o uso dessas medicações, exigindo receita e controle rígido.
Álcool e canetas: não é só questão de caloria
Questionado sobre o consumo de álcool por quem faz uso das canetas, Dr. Jean explicou que o álcool não corta diretamente o efeito da medicação, mas:
Potencializa a embriaguez – a pessoa pode ficar bêbada muito mais rápido;
É extremamente calórico e totalmente incoerente com o objetivo de tratamento de obesidade.
Em resumo: se a pessoa está num tratamento sério para emagrecer, o álcool deveria ser minimizado ao máximo.
Futuro do tratamento da obesidade: novas moléculas e o desafio do custo
O nutrólogo também comentou a evolução dos medicamentos:
Do tratamento inicial focado em diabetes;
Passando pela semaglutida (caso do Ozempic e similares);
Até chegar à tirzepatida, que combina mais de um análogo e tem mostrado grande eficácia na perda de peso, com menos efeitos colaterais em muitos pacientes.
Ele destacou que a obesidade é uma doença crônica, e o tratamento medicamentoso costuma ser de longo prazo, o que torna o custo um obstáculo enorme:
Hoje, as medicações ainda giram em torno de valores na casa de “mil e poucos reais” por mês;
Isso as torna inacessíveis para grande parte da população e difíceis de incorporar em larga escala no sistema público.
Há expectativa de que, com a quebra de patentes – especialmente da semaglutida – farmácias nacionais passem a produzir versões mais acessíveis, o que poderia mudar esse cenário nos próximos anos.
Remédio é o carro. Quem dirige ainda é o paciente.
Dr. Jean usou uma metáfora simples para explicar o papel da medicação:
A medicação é como um carro: a gente consegue ir a pé, mas o carro ajuda a chegar mais rápido.
Se a pessoa não muda o comportamento – sedentarismo, alimentação ruim –, não adianta ter o carro.
Entre os “inimigos” do tratamento, ele citou:
Sedentarismo;
Dietas ricas em gordura e pobre em nutrientes;
Falta de acompanhamento médico;
Uso por conta própria, baseado em propaganda de redes sociais e influência de terceiros.
Quem é o Dr. Jean Muchon
Ao fim do programa, o nutrólogo contou um pouco de sua trajetória:
Médico, com residência em cirurgia geral em Minas Gerais;
Especialização em nutrologia em São Paulo, onde também atuou por vários anos;
Há cerca de dois anos, retornou a Campo Grande, onde tem raízes familiares e onde hoje atende pacientes com foco em nutrologia clínica e tratamento da obesidade.
Ele também explicou a diferença entre nutricionista e nutrólogo: o primeiro é profissional formado em Nutrição, especializado em alimentação e suplementação; o segundo é médico, com formação completa em Medicina e especialização em nutrologia, habilitado a diagnosticar doenças, solicitar exames, prescrever medicamentos e conduzir tratamentos clínicos mais complexos.
Serviço
O programa Papo Reto, com apresentação de Joel Silva, vai ao ar em formato de podcast/talk show pelo TopMídia News, com transmissão em áudio e vídeo nas plataformas digitais, trazendo entrevistas, análises e debates sobre temas de saúde, política, comportamento e atualidade.
Dr. Jean Muchon pode ser encontrado nas redes sociais procurando por “Dr. Jean Muchon”, onde compartilha conteúdos sobre nutrologia, emagrecimento seguro e qualidade de vida.




O Papo Reto vai ao ar às terças e quintas-feiras, às 7h, sob o comando do jornalista Joel Silva, nas redes sociais do TopMídiaNews.









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