Demover do quê?

por | set 4, 2025 | Destaques, informes, NOTÍCIAS, OPINIÃO/ARTIGO

Quando a defesa entrega, sem querer, a própria confissão de que a tentativa de golpe existiu.

A pergunta da ministra Cármen Lúcia ao advogado do general Heleno resume a encruzilhada que se tornou o julgamento dos atos golpistas: “Demover do quê?”. Cada vez que a defesa tenta se esquivar, acaba entregando a essência. Ao dizer “meu cliente não participou”, a confissão está implícita — participou de quê, afinal? De uma trama. E trama contra a democracia é crime, mesmo que não tenha se consumado. Tentativa já é crime.

É isso que parece escapar à retórica dos advogados. Ao buscar a absolvição pela negativa de participação, reconhecem o enredo. O tribunal não julga abstrações, julga fatos que tiveram rostos, datas, locais e objetivos: abalar a ordem constitucional.

Mas não dá para fingir que não há riscos. Quando o ministro Alexandre de Moraes pergunta sobre uma postagem que nem sequer fazia parte da acusação, a fronteira entre juiz e investigador fica borrada. Esse tipo de excesso é combustível para narrativas de perseguição. O Judiciário precisa ter cuidado redobrado para não oferecer munição a quem já opera na lógica do “nós contra eles”.

Ainda assim, não nos enganemos: não estamos diante de meros deslizes de conduta política. Houve planejamento, houve movimentação, houve ameaça real. E a Constituição é cristalina: o artigo 5º, inciso XLIV, define como crime inafiançável e imprescritível qualquer ação de grupos armados contra a ordem constitucional e o Estado Democrático. Não é opinião, é lei. Se o golpe tivesse dado certo, não estaríamos aqui debatendo, estaríamos lamentando o fim das instituições. Esse é o centro: a democracia sobreviveu por um fio, e não por mérito de quem conspirou.

O Brasil precisa olhar para esse processo com a sobriedade que ele exige. Não é espetáculo, não é disputa de narrativa. É a linha que separa Estado de Direito de aventura autoritária. O resto — os exageros, os discursos inflamados, as manobras de defesa — não pode distrair do óbvio: uma tentativa de golpe aconteceu. E isso basta para que a Justiça seja feita.

Joel Silva – Radialista e jornalista de formação especializado em mkt político.

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