Um pedido exagerado que escancara mais teatro do que prudência
A Polícia Federal pediu ao ministro Alexandre de Moraes autorização para colocar agentes dentro da casa do ex-presidente Jair Bolsonaro, sob argumento de que a tornozeleira eletrônica não seria suficiente para evitar uma fuga. A justificativa se apoia em possíveis falhas do equipamento e até cita o caso histórico do ex-juiz Nicolau dos Santos Neto, que também teve vigilância interna durante prisão domiciliar.
O raciocínio da PF, embora juridicamente amparado, soa mais como um gesto de espetáculo do que uma medida prática. Em primeiro lugar, porque Bolsonaro não tem condições de desaparecer do mapa sem que o país inteiro saiba. Em segundo, porque a própria Procuradoria-Geral da República já apontou o caminho razoável: vigilância externa reforçada, sem precisar invadir a intimidade de uma residência e criar constrangimento público desnecessário.
O que se pede, na prática, é transformar a casa de Bolsonaro numa extensão de uma penitenciária, com policiais acampados dentro do imóvel 24 horas por dia. Isso não apenas viola a privacidade de uma família, como gera um precedente perigoso: quantos outros políticos, empresários ou autoridades em prisão domiciliar aceitariam esse tipo de vigilância invasiva?
O Brasil precisa de equilíbrio. Monitoramento é essencial, cumprimento de medidas cautelares também. Mas a sanha por transformar cada decisão judicial em espetáculo midiático tem corroído a confiança da sociedade no sistema de justiça. O papel da lei é assegurar igualdade, não alimentar a sensação de que tudo é feito sob medida para aumentar a polarização política.
O país já arca com a instabilidade gerada por crises políticas sucessivas. Manter policiais dentro da casa de um ex-presidente, quando medidas menos invasivas já estão disponíveis e foram recomendadas pela própria PGR, é mais show do que justiça. E a democracia não precisa de show — precisa de sobriedade.
Joel Silva – Radialista e jornalista de formação especializado em Mkt político









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