Opinião de Joel Silva: Quando nomear vira “manobra” — ou não

por | jul 24, 2025 | Destaques, informes, NOTÍCIAS, OPINIÃO/ARTIGO

Brasil, 2016. Um áudio entre Dilma Rousseff e Lula vaza como gasolina jogada na crise política. Dilma dizia que enviaria a ele o termo de posse como ministro da Casa Civil “em caso de necessidade”. Para a oposição, era claro: manobra para dar foro privilegiado a Lula e blindá-lo da Lava Jato.

O país veio abaixo. O STF, a imprensa e a classe política classificaram a tentativa como vergonhosa, uma afronta ao Judiciário. A nomeação foi barrada, e Lula acabou preso meses depois.

Agora, 2025. A direita bolsonarista ensaia repetir o mesmo enredo — com outra narrativa.

Eduardo Bolsonaro, o “03”, está na mira da Justiça Eleitoral, que pode cassar seu mandato por abuso de poder. A resposta do seu grupo? Simples: ventilam a possibilidade de nomeá-lo para um cargo no Executivo — mais precisamente, secretário de Estado em São Paulo. Cargo com foro. Cargo com escudo.

Deputado assumiria pasta de Relações Institucionais, mas precisaria retornar ao Brasil para assumir cargo, segundo informações do RJTV

O que antes era “fraude institucional”, agora virou “estratégia política legítima”.

Dois pesos, duas medidas

Quando Lula seria nomeado ministro, o país parou. Foi manchete, escândalo, indignação generalizada. Agora, o mesmo truque — com menos disfarce e mais cinismo — é tratado como especulação burocrática, sem o mesmo alarde.

O detalhe cruel? Em 2016, Lula sequer tinha sido julgado — e a condenação posterior foi anulada. Já Eduardo Bolsonaro enfrenta um processo em andamento com indícios robustos. Mas, curiosamente, os paladinos da moral pública estão em silêncio.

A regra é clara. Mas só vale pra uns.

Nomeações políticas são parte do jogo democrático, mas usar um cargo público como abrigo judicial é corrupção do espírito republicano. Vale lembrar que o foro privilegiado foi criado para proteger o exercício do cargo, não para blindar os ocupantes da lei.

Quando o Brasil naturaliza esse tipo de barganha — e pior, a aplica seletivamente — ele rasga qualquer noção de Justiça isonômica.

O nome disso não é esperteza. É hipocrisia.

Se blindar Lula era crime, blindar Eduardo também é. E se em um caso o Supremo agiu, agora tem a chance de mostrar que sua régua é constitucional — não ideológica.

Então juiz Sérgio Moro tornou público um grampo telefônico de uma conversa entre Lula e a presidente Dilma Rousseff (PT).

O povo já cansou de ver o mesmo script, com atores diferentes e finais parecidos: a impunidade sempre vence o senso de justiça.

Por Joel Silva – Jornalista, radialista e acadêmico de direito.

*Diariamente Joel Silva apresenta o Programa A Banca na Rede Top de Rádios

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