Brasil, 2016. Um áudio entre Dilma Rousseff e Lula vaza como gasolina jogada na crise política. Dilma dizia que enviaria a ele o termo de posse como ministro da Casa Civil “em caso de necessidade”. Para a oposição, era claro: manobra para dar foro privilegiado a Lula e blindá-lo da Lava Jato.
O país veio abaixo. O STF, a imprensa e a classe política classificaram a tentativa como vergonhosa, uma afronta ao Judiciário. A nomeação foi barrada, e Lula acabou preso meses depois.
Agora, 2025. A direita bolsonarista ensaia repetir o mesmo enredo — com outra narrativa.
Eduardo Bolsonaro, o “03”, está na mira da Justiça Eleitoral, que pode cassar seu mandato por abuso de poder. A resposta do seu grupo? Simples: ventilam a possibilidade de nomeá-lo para um cargo no Executivo — mais precisamente, secretário de Estado em São Paulo. Cargo com foro. Cargo com escudo.

O que antes era “fraude institucional”, agora virou “estratégia política legítima”.
Dois pesos, duas medidas
Quando Lula seria nomeado ministro, o país parou. Foi manchete, escândalo, indignação generalizada. Agora, o mesmo truque — com menos disfarce e mais cinismo — é tratado como especulação burocrática, sem o mesmo alarde.
O detalhe cruel? Em 2016, Lula sequer tinha sido julgado — e a condenação posterior foi anulada. Já Eduardo Bolsonaro enfrenta um processo em andamento com indícios robustos. Mas, curiosamente, os paladinos da moral pública estão em silêncio.
A regra é clara. Mas só vale pra uns.
Nomeações políticas são parte do jogo democrático, mas usar um cargo público como abrigo judicial é corrupção do espírito republicano. Vale lembrar que o foro privilegiado foi criado para proteger o exercício do cargo, não para blindar os ocupantes da lei.
Quando o Brasil naturaliza esse tipo de barganha — e pior, a aplica seletivamente — ele rasga qualquer noção de Justiça isonômica.
O nome disso não é esperteza. É hipocrisia.
Se blindar Lula era crime, blindar Eduardo também é. E se em um caso o Supremo agiu, agora tem a chance de mostrar que sua régua é constitucional — não ideológica.

O povo já cansou de ver o mesmo script, com atores diferentes e finais parecidos: a impunidade sempre vence o senso de justiça.
Por Joel Silva – Jornalista, radialista e acadêmico de direito.
*Diariamente Joel Silva apresenta o Programa A Banca na Rede Top de Rádios









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